Pegando uma carona
por Edemilson Morais


No final de uma seqüência no jatinho de campanha, Lula conta sobre o encontro com uma pessoa no aeroporto de Florianópolis. Era um rapaz que acabava de perder um voô para Porto Alegre e via nesse encontro uma compensação por isso. A seqüência seguinte é de uma equipe de filmagem incrédula entrevistando o tal rapaz, um vendendor de medicamentos que acabou por ganhar uma carona de Lula, e viajou juntamente com toda a equipe de campanha. Ao contrário do que todos imaginavam, ele não era um amigo íntimo de Lula, mas uma pessoa qualquer, como cada telespectador desse filme.


Entreatos extrapola o conceito de documentário, no que tange a simples narração ou documentação. Entreatos torna o telespectador participante daquela história. Ao assistirmos ao filme, passamos a fazer parte daqueles momentos, a ficar íntimo de tudo aquilo. Passamos a ser “o carona” daquela história - Sentados no jatinho, apertados no carro, desequilibrados no elevador.


Essa intimidade gerada pela aparente onipresença altera nosso olhar. Não somos só telespectador. Somos companheiros, amigos que ouvem piadas, riem de conversas, compreendem exageros. O Lula, afinal, é um pessoa comum, que no carro ouve Zeca Pagodinho.
São dois os responsáveis por esses efeitos sensoriais de Entreatos – João Moreira Salles, idealizador dessa proposta e Walter Carvalho com sua câmera esperta. João Moreira Salles buscou realizar, não um documentário, mas uma experiência para quem o vê. Não somos colocados a uma narração sobre Lula e sua biografia. Somos convidados a viver e descobrir por nós mesmos quem é o Lula, ou ao menos, quem ele demonstra ser.


Walter Carvalho é o olhar. Sua câmera é a simplicidade. Suas imagens são como nossas memórias, quando nos lembramos de um momento qualquer - entre cabeças e pescoços, desequilibrados, na ponta do pé. E é um olhar corajoso e curioso. Walter Carvalho, provavelmente, utilizou aqui a poesia da obra-prima que é Janela da Alma com as possibilidades que se abrem com a tecnologia digital – sem rolos de filme, com pouca luz e equipe mínima.
Não se deve ver Entreatos como um filme político. As frases, divagações e momentos ali presentes não devem ser entendidos como fatos políticos, até porque são meros cortes de uma ampla estrutura. Entreatos deve ser visto como uma forma de compreender uma pessoa.


Haverá sempre a discussão do quanto há da pessoa Lula no personagem de Entreatos e quanto há do personagem de Entreatos na pessoa Lula. João Moreila Salles, numa entrevista para IstoÉ, responde assim:
Nem sequer sei se o Lula que está ali é o seu Lula, é o Lula do Lula, o Lula da dona Marisa, o meu Lula. O interessante é o fato de Lula ser carne, osso, sangue, ambíguo, complexo, paradoxal, tudo ao mesmo tempo.


Dificilmente teremos a oportunidade e a possibilidade de tentar entender ou nos identificar com outro presidente como Lula.


Entreatos é imperdível. É uma aula de cinema na aparente simplicidade de uma vida.


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Saiba mais

Leia aqui uma entrevista de João Moreira Salles para Agência Brasil - nessa entrevista ele conta porque Lula prefere não assistir ao filme.