Risos e Lágrimas


Comovente e sentimental,
documentário Doutores da Alegria
escapa às pieguices

por Angélica Valente

Piegas, o dicionário diz, designa alguma coisa ou pessoa ridiculamente sentimental. Já usaram este adjetivo para classificar o documentário Doutores da Alegria, dirigido por Mara Mourão. Acredito que existem palavras mais adequadas para se referir ao registro de um trabalho que há 14 anos intervém de maneira lúdica e despretensiosa no cotidiano de crianças internadas em nossos pouco inspiradores hospitais.

Da abertura ao fim do filme, o que surge na tela é de fato sentimental: a história dos palhaços, contada por meio de gravuras, quadros e ilustrações de época; as cenas em que os pequenos aparecem envoltos pelo aparato médico, entubados, enfaixados, anestesia-dos; o longo depoimento de Wellington Nogueira, fundador do grupo no Brasil; os demais depoimentos, a música, as falas e as imagens são, por vezes, sentimentais.

Sentimental é mesmo a situação vivida pelas crianças internadas. Sentimental é também um ator que se vê tocado por esse trabalho e se dispõe a encara-lo. Mas sentimental porque relativo ao sentimento, não necessariamente por dizer respeito às emoções bara-tas ou ridículas - ainda que possamos nos sentir assim ao ver sair da boca um riso tolo, ou dos olhos, lágrimas, provocadas pelo que se vê na tela.

Há mérito no trabalho do grupo, que sabe seus limites, entende até onde influencia aquele ambiente em que intervém, não se pretende intocável, irrepreensível, mas também é capaz de fazer a diferença. “Colocamos as crianças em contato com o que elas têm de mais saudável”, dizem em seu site (www.doutoresdaalegria.org.br), justificando seu existir.

Mara Mourão, portanto, é feliz na escolha de seu “tema” e estabelece um diálogo com ele de forma de que o documentário não se limite à retratação (mas afinal é realmente possível que algo seja “apenas” retratação?). Cada depoente parece ter escolhido um cenário para falar, espaços em que se mostram con-fortáveis, à vontade: em casa, cozinhando; numa sala vazia e espelhada; de bicicleta, no parque; num estádio de futebol; modelando as máscaras de palhaço; comendo sushi em um pequeno bar; na platéia de um teatro vazio. Depoente principal, (por motivos óbvios, mas que não necessariamente se justificam: longo demais, torna-se um quase nar-rador onipresente), Wellington Nogueira está diante de um picadeiro, e ali nos fala sobre e representa a história do grupo, sua história, outras histórias...

Disfarçada, a câmera passeia pelos corredores inós-pitos de ambulatórios infantis à procura do riso pro-vocado pelos atores do grupo. E é em meio a muita cara amarrada, dor e impaciência, que ele surge para intervir. A figuração das enfermeiras, a fala dos médicos e diretores da instituição, mas, principal-mente, os “nãos” que as crianças por vezes impõem aos palhaços colocam-nos em seu devido lugar e deixam claro que sua presença ali está longe de ser a redenção do ambiente asséptico. Em respeito, eles entendem, saem de cena e assumem seu papel nessa história.

Ponto alto do filme, as recordações dos atores sobre situações engraçadas, emocionantes e constran-gedoras que viveram fazem o espectador oscilar
entre a gargalhada estalada e o choro incontinente. Já disseram por ai que um bom filme tem que saber fazer rir e chorar. Se é mesmo verdade, foi exata-mente isso o que Mara Mourão fez.

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FICHA TÉCNICA

Direção e Roteiro
: Mara Mourão
Produção: Mamo Filmes e Grifa Mixer
Co-Produção: Discovery Networks Latin América / Ibéria e Teleimage
Produção Executiva: Fernando Dias
Direção de Produção: Maurício Dias
Coordenação de Produção: Tatiana Battaglia
Direção de Fotografia: Helcio Alemão Nagamine
Montagem: Rodrigo Menecucci
Música Original: Arrigo Barnabé
Edição de Som: Miriam Biderman
Mixagem: Estúdios Álamo
Som Direto: Paulo Ricardo Nunes
Direção de Arte: Marcelo Righini
Roteirista Colaborador: Fernando Bolognesi
Duração: 96 minutos
Elenco: Wellington Nogueira, Ângelo Brandini, Beatriz Sayad, César Gouvêa, César Tavares, Cláudia Zucheratto, Dagoberto Feliz, Danielle Barros,Enne Marx, Eugenio La Salvia, Fernando Escrich, Soraya Saide.


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