Rapsódia em Azul, por Polyana Ramos

Manhattan. Gershwin. Manhattan. Gershwin. Os nomes se infundem. A confluência de emoções, a essência cinematográfica, o trabalho visual e sonoro. A abertura fantástica e apoteótica de Rhapsody In Blue em meio à imagens cinzentas, à cores neutras subtraídas de um mundo real, sem influências, pontuado de uma crueldade sentimental, de uma tonalidade semelhante ao brusco barulho das ruas movimentadas e das almas em conflito, da solidão de se estar em uma multidão indizível, ilimitada. O preto e branco da nostalgia, de tempos remotos, paixões perdidas, sensações convulsas. Os prédios, as avenidas, os monumentos de uma sociedade agastada, transbordando emoções diversas e sentimentos múltiplos.
George Gershwin (1898-1937) é um dos maiores compositores da história norte-americana. Ele compôs trilhas para muitas obras da Broadway e diversos filmes hollywoodianos, trabalhando sempre em parceria com seu irmão letrista Ira(1896-1983). Criou a primeira grande ópera norte-americana “Porgy and Bess”, portadora de “Summertime”, uma das mais belas músicas da época.
As faixas “Someone to Watch Over me”, “’S Wonderful”, “Love is here to stay”, canções de sucesso mundial, bem como o resto da trilha musical, estão contextualmente pertinentes no enredo, acrescentando um tom saudosista ao filme. Como acontece nos filmes de Woody Allen, o intercâmbio entre a trilha, conteúdo e imagens acaba por transformar qualquer trabalho, ainda que carente em alguns aspectos, em uma obra irresistível. Irresistível e memorável, um belo retrato aos amantes do cinema onírico e divino dos anos 30 e 40, dos adoradores das big bands, das vozes hipnotizantes e tonalizadas, da temática romântica, idílica.
O final dá vazão à uma trilha melancólica, amplamente emocional, em que sentimos a personagem de Woody Allen gritar aos céus e a uma Nova York inaudita: “A lucky star's above, but not for me...” , “… when ev'ry happy plot ends with the marriage knot, and there's no knot for me”. Um ritmo certo e infeliz. Poético. Único. Um desfecho solitário e plausível. Plausível para quem vive o isolamento de se estar em meio a uma multidão. Multidão em Nova York.

TRILHA SONORA – MANHATTAN

1. Rhapsody in Blue - Gary Graffman
2. Land of the Gay Caballero
3. Someone to Watch over Me
4. I've Got a Crush on You
5. Do, Do, Do
6. Mine
7. He Loves and She Loves
8. Bronco Busters
9. Oh, Lady Be Good
10. 'S Wonderful
11. Love Is Here to Stay
12. Sweet and Low-Down
13. Blue, Blue, Blue
14. Embraceable You
15. He Loves and She Loves
16. Love Is Sweeping the Country/Land of the Gay Caballero
17. Strike up the Band
18. But Not for Me

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