CinePapo
- O QUE SIGNIFICA O CINEMA DOCUMENTÁRIO HOJE?
JOÃO MOREIRA SALLES - Quando eu comecei a dar
aulas de documentário, no meio da década de 90, eu recebia
alunos que não conheciam filmes. Numa analogia mais universal
- era como seu eu chegasse para uma aula literatura e as pessoas chegassem
na sala de aula como se nunca tivessem ouvido falar em Machado de Assis,
Euclides da Cunha, ou Graciliano. As pessoas queriam fazer documentários
mas não conheciam os textos básicos do documentário,
os textos visuais. Assim fica muito difícil. Hoje em dia, eu
entro numa sala de aula, como entrei ontem, e as pessoas sabem muita
coisa, conhecem os filmes, assistiram, sabem o que é que aconteceu
no mundo. E eu acho que isso é fundamental para se melhorar a
produção do documentário brasileiro. Por que elas
sabem mais? Tem uma série de razões, mas, talvez, a principal
seja o Festival do Amir (Labaki – organizador do Festival Internacional
de Documentários), que há sete anos vem trazendo para
o Brasil o que de melhor há de produção documental
no mundo. E não é só a produção recente.
Tem sempre algum núcleo de recuperação de um grande
documentarista.Eu acho que isso é talvez a razão principal
que levou as pessoas a estarem mais alfabetizadas hoje em dia. E isso
vai ser muito mais importante quando essas pessoas pegarem a câmera
e saírem fazendo seu primeiro um documentário.
CP - EM DOIS MIL VOCÊ GANHOU O PRÊMIO
DO FESTIVAL POR NOTÍCIAS DE UM GUERRA PARTICULAR. O QUE ISSO
REPRESENTOU PARA O FILME E PARA VOCÊ?
JMS - Acho que ganhar um prêmio do é “Tudo
Verdade” é muito importante, não só no Brasil,
mas no mundo todo. No pequeno círculo de festivais de documentários,
o “É Tudo Verdade” é, hoje em dia, considerado
um dos mais prestigiosos. É uma grande credencial. No caso especifico
do “Noticías”, foi muito importante porque foi no
meio de uma confusão danada, na qual eu estava metido e que envolvia
polícia, processo. Foi um ato solidariedade muito importante
para mim, e que me ajudou a ganhar legitimidade frente às pessoas
que estavam me acusando. Não foi só importante para mim
como profissional, mas foi mais do que isso - foi um gesto solidário,
muito importante naquele momento.
CP
- UM POUCO SOBRE VOCÊ AGORA. SOUBE QUE SEMPRE QUERIA SER MÉDICO,
ENTÃO O QUE TE LEVOU A TRILHAR O DOCUMENTÁRIO?
JMS - Sou formado em Economia e comecei fazer documentário
muito cedo, com 22 ou 23 anos de idade, e comecei a fazer documentário
porque eu chegava muito cedo da faculdade, e também, porque sabia
que eu seria um péssimo economista. Medicina eu descobri muito
mais tarde, com trinta e tantos. É uma eterna frustração,
porque eu não tive coragem de abandonar tudo para recomeçar.
Mas eu sei hoje em dia que é minha vocação, e sei
que serei um eterno médico frustrado. E eu não tenho tanta
admiração assim pelo documentário – quer
dizer, eu gosto de fazer. Gosto ate mais de dar aula do que de fazer.
Aprendi a gostar de fazer, mas não é uma necessidade vital,
eu nunca fui um sujeito vocacionado, daqueles que dizem - quero fazer
imagem, quero ser cineasta. Aconteceu. Mas hoje em dia eu gosto. Não
acho importante fazer documentário, mas acho que é algo
interessante que te coloca em contato com universos, pessoas, e mundos
de pessoas que você jamais entraria em contato se não fosse
o trabalho. E isso é fascinante. É um trabalho de equipe
e um processo de criação longo que dá muito prazer.
É uma sensação muito prazerosa.
CP-
O VOCÊ FAZ É MAIS ARTE OU MAIS INFORMAÇÃO?
JMS-Essa
pergunta eu não sei te responder. A única coisa que eu
sei, é o que o documentário não é, e não
dever ser. Ele não deve ser didático, ele não dever
ser feito para ensinar as pessoas, para mudar a cabeça das pessoas,
não deve ter nenhum objetivo militante ou pedagógico.
Ele não é nada disso. Eu considero a imagem ambígua.
Ela não significa uma só coisa, ela significa varias.
Isso que é a graça da imagem. Essa que e a graça
do documentário. Aliás, todo documentário que tenta
eliminar essa ambigüidade, se torna um mal documentário.
Os documentários que tentam eliminar essa ambigüidade são
aqueles que querem dar uma aula, ensinar.
CP
- O PROFESSOR LUC DE HEUSCH DIZ AFIRMA QUE O DOCUMENTARIO RETRATA UM
PONTO DE VISTA. O QUE ACHA?
JMS - É exatamente isso.E é importante que seja
um ponto de vista. Não é um retrato objetivo da realidade.
Acho que os melhores são os mais ambíguos. E você
faz documentário, porque tem fazer alguma coisa da vida. Eu não
faço documentários com sentido de mudança, do tipo
- vou mostrar para as pessoas, para promover a consciência. Isso
é uma maneira errada de se fazer documentário.
CP
- HÁ ALGUM PARADOXO ENTRE O CINEASTA DE FICÇAO E O CINEASTA
DE DOCUMENTARIO.
JMS - Não há paradoxo algum. As pessoas
ficam migrando de um lado para o outro numa boa.
CP
- VOCÊ PENSA EM FAZER FICÇÃO?
JMS - Não, eu não penso em fazer ficção.
Eu não tenho vontade.
CP
- O QUE É MAIS IMPORTANTE NUM DOCUMENTÁRIO: PRÉ-PRODUÇÃO,
FILMAGEM OU MONTAGEM?
JMS - No meu caso é uma coisa, e se perguntar
para o Coutinho ele vai dizer que é outra coisa. Para mim as
três etapas são importante - gosto de estar presente em
todas - mas se eu tivesse que delegar, se eu tivesse que me ausentar
de uma das três etapas, tenho a impressão, paradoxalmente
falando, de que me ausentaria da filmagem. Como a aliás isso
já aconteceu - eu não pude ir e mandei alguém.
Mas eu sabia exatamente o que precisava ser filmado. Acho que, de todas
as etapas, a única que você nunca pode se ausentar é
a montagem. Pois como o documentário é estruturado na
ilha de edição, é impossível não
estar presente.
CP
- FALE UM POUCO MAIS SOBRE O NOTÍCIAS E UMA GUERRA PARTICULAR.
JMS- É um documentário meu e da Katia
Lund, feito de forma muito urgente, sem parar muito para pensar. Do
momento da concepção às filmagens, não se
passaram mais do que três semanas. Grande parte das pessoas que
participaram do documentário, foram encontradas pela primeira
vez no momento da filmagem. É, portanto, um documentário
que deve muito ao acaso, que deve muito a falta de planejamento, e é
um documentário que se der certo, vai ser percebido com ambigüidade.
É um documentário que não tenta argumentar nenhum
tipo de solução, que não tenta dar nenhuma resposta.
Ele apenas mostra o problema. Essa é uma das funções
do documentário, se é que ele tem alguma função.
O que o documentário faz é indagar. O “Notícias”
foi feito por duas pessoas que moram no Rio de Janeiro, que estavam
muito espantadas com o que acontecia naquele momento, e que saíram
para documentar aquilo, ou seja, é o documentarista como testemunha.
CP
- COMO FOI A PRÉ-PRODUÇÃO DE “NOTÍCIAS”?
JMS - A pré-produção
foi muito rápida. Era preciso fazer muito rapidamente. A situação
estava crítica, e se a gente demorasse muito, poderia perder
o barco. O filme foi sendo feito na medida que ia sendo filmado.
CP
- E A REPERCUSSÃO DO FILME?
JMS - O filme passou quase cinco meses e meio no limbo.
E aí passou a ser visto muito por causa de minha historia pessoal,
que nada tem a ver com o documentário. Isso é um pouco
o destino de todo o documentário. O documentário será
sempre visto por muita pouca gente, e é isso mesmo, não
está errado. Não adianta pensar que o documentário
vai mudar o mundo, que não vai. E isso não é uma
confissão de derrota. Eu acho que o documentário tem uma
função, que é muito pequena, e para pouca gente.
E foi assim com o “Notícias” até que houve
o problema, quando ele passou a ser visto”.
:: comente aqui :: <[email protected]>
|