Entrevista de João Moreira Salles a Edemilson Morais em 20 de abril de 2002, durante o Festival "É Tudo Verdade"

 

CinePapo - O QUE SIGNIFICA O CINEMA DOCUMENTÁRIO HOJE?
JOÃO MOREIRA SALLES - Quando eu comecei a dar aulas de documentário, no meio da década de 90, eu recebia alunos que não conheciam filmes. Numa analogia mais universal - era como seu eu chegasse para uma aula literatura e as pessoas chegassem na sala de aula como se nunca tivessem ouvido falar em Machado de Assis, Euclides da Cunha, ou Graciliano. As pessoas queriam fazer documentários mas não conheciam os textos básicos do documentário, os textos visuais. Assim fica muito difícil. Hoje em dia, eu entro numa sala de aula, como entrei ontem, e as pessoas sabem muita coisa, conhecem os filmes, assistiram, sabem o que é que aconteceu no mundo. E eu acho que isso é fundamental para se melhorar a produção do documentário brasileiro. Por que elas sabem mais? Tem uma série de razões, mas, talvez, a principal seja o Festival do Amir (Labaki – organizador do Festival Internacional de Documentários), que há sete anos vem trazendo para o Brasil o que de melhor há de produção documental no mundo. E não é só a produção recente. Tem sempre algum núcleo de recuperação de um grande documentarista.Eu acho que isso é talvez a razão principal que levou as pessoas a estarem mais alfabetizadas hoje em dia. E isso vai ser muito mais importante quando essas pessoas pegarem a câmera e saírem fazendo seu primeiro um documentário.


CP - EM DOIS MIL VOCÊ GANHOU O PRÊMIO DO FESTIVAL POR NOTÍCIAS DE UM GUERRA PARTICULAR. O QUE ISSO REPRESENTOU PARA O FILME E PARA VOCÊ?
JMS - Acho que ganhar um prêmio do é “Tudo Verdade” é muito importante, não só no Brasil, mas no mundo todo. No pequeno círculo de festivais de documentários, o “É Tudo Verdade” é, hoje em dia, considerado um dos mais prestigiosos. É uma grande credencial. No caso especifico do “Noticías”, foi muito importante porque foi no meio de uma confusão danada, na qual eu estava metido e que envolvia polícia, processo. Foi um ato solidariedade muito importante para mim, e que me ajudou a ganhar legitimidade frente às pessoas que estavam me acusando. Não foi só importante para mim como profissional, mas foi mais do que isso - foi um gesto solidário, muito importante naquele momento.

CP - UM POUCO SOBRE VOCÊ AGORA. SOUBE QUE SEMPRE QUERIA SER MÉDICO, ENTÃO O QUE TE LEVOU A TRILHAR O DOCUMENTÁRIO?
JMS - Sou formado em Economia e comecei fazer documentário muito cedo, com 22 ou 23 anos de idade, e comecei a fazer documentário porque eu chegava muito cedo da faculdade, e também, porque sabia que eu seria um péssimo economista. Medicina eu descobri muito mais tarde, com trinta e tantos. É uma eterna frustração, porque eu não tive coragem de abandonar tudo para recomeçar. Mas eu sei hoje em dia que é minha vocação, e sei que serei um eterno médico frustrado. E eu não tenho tanta admiração assim pelo documentário – quer dizer, eu gosto de fazer. Gosto ate mais de dar aula do que de fazer. Aprendi a gostar de fazer, mas não é uma necessidade vital, eu nunca fui um sujeito vocacionado, daqueles que dizem - quero fazer imagem, quero ser cineasta. Aconteceu. Mas hoje em dia eu gosto. Não acho importante fazer documentário, mas acho que é algo interessante que te coloca em contato com universos, pessoas, e mundos de pessoas que você jamais entraria em contato se não fosse o trabalho. E isso é fascinante. É um trabalho de equipe e um processo de criação longo que dá muito prazer. É uma sensação muito prazerosa.

CP- O VOCÊ FAZ É MAIS ARTE OU MAIS INFORMAÇÃO? JMS-Essa pergunta eu não sei te responder. A única coisa que eu sei, é o que o documentário não é, e não dever ser. Ele não deve ser didático, ele não dever ser feito para ensinar as pessoas, para mudar a cabeça das pessoas, não deve ter nenhum objetivo militante ou pedagógico. Ele não é nada disso. Eu considero a imagem ambígua. Ela não significa uma só coisa, ela significa varias. Isso que é a graça da imagem. Essa que e a graça do documentário. Aliás, todo documentário que tenta eliminar essa ambigüidade, se torna um mal documentário. Os documentários que tentam eliminar essa ambigüidade são aqueles que querem dar uma aula, ensinar.

CP - O PROFESSOR LUC DE HEUSCH DIZ AFIRMA QUE O DOCUMENTARIO RETRATA UM PONTO DE VISTA. O QUE ACHA?
JMS
- É exatamente isso.E é importante que seja um ponto de vista. Não é um retrato objetivo da realidade. Acho que os melhores são os mais ambíguos. E você faz documentário, porque tem fazer alguma coisa da vida. Eu não faço documentários com sentido de mudança, do tipo - vou mostrar para as pessoas, para promover a consciência. Isso é uma maneira errada de se fazer documentário.

CP - HÁ ALGUM PARADOXO ENTRE O CINEASTA DE FICÇAO E O CINEASTA DE DOCUMENTARIO.
JMS - Não há paradoxo algum. As pessoas ficam migrando de um lado para o outro numa boa.

CP - VOCÊ PENSA EM FAZER FICÇÃO?
JMS - Não, eu não penso em fazer ficção. Eu não tenho vontade.

CP - O QUE É MAIS IMPORTANTE NUM DOCUMENTÁRIO: PRÉ-PRODUÇÃO, FILMAGEM OU MONTAGEM?
JMS - No meu caso é uma coisa, e se perguntar para o Coutinho ele vai dizer que é outra coisa. Para mim as três etapas são importante - gosto de estar presente em todas - mas se eu tivesse que delegar, se eu tivesse que me ausentar de uma das três etapas, tenho a impressão, paradoxalmente falando, de que me ausentaria da filmagem. Como a aliás isso já aconteceu - eu não pude ir e mandei alguém. Mas eu sabia exatamente o que precisava ser filmado. Acho que, de todas as etapas, a única que você nunca pode se ausentar é a montagem. Pois como o documentário é estruturado na ilha de edição, é impossível não estar presente.

CP - FALE UM POUCO MAIS SOBRE O NOTÍCIAS E UMA GUERRA PARTICULAR.
JMS- É um documentário meu e da Katia Lund, feito de forma muito urgente, sem parar muito para pensar. Do momento da concepção às filmagens, não se passaram mais do que três semanas. Grande parte das pessoas que participaram do documentário, foram encontradas pela primeira vez no momento da filmagem. É, portanto, um documentário que deve muito ao acaso, que deve muito a falta de planejamento, e é um documentário que se der certo, vai ser percebido com ambigüidade. É um documentário que não tenta argumentar nenhum tipo de solução, que não tenta dar nenhuma resposta. Ele apenas mostra o problema. Essa é uma das funções do documentário, se é que ele tem alguma função. O que o documentário faz é indagar. O “Notícias” foi feito por duas pessoas que moram no Rio de Janeiro, que estavam muito espantadas com o que acontecia naquele momento, e que saíram para documentar aquilo, ou seja, é o documentarista como testemunha.

CP - COMO FOI A PRÉ-PRODUÇÃO DE “NOTÍCIAS”?
JMS - A pré-produção foi muito rápida. Era preciso fazer muito rapidamente. A situação estava crítica, e se a gente demorasse muito, poderia perder o barco. O filme foi sendo feito na medida que ia sendo filmado.

CP - E A REPERCUSSÃO DO FILME?
JMS - O filme passou quase cinco meses e meio no limbo. E aí passou a ser visto muito por causa de minha historia pessoal, que nada tem a ver com o documentário. Isso é um pouco o destino de todo o documentário. O documentário será sempre visto por muita pouca gente, e é isso mesmo, não está errado. Não adianta pensar que o documentário vai mudar o mundo, que não vai. E isso não é uma confissão de derrota. Eu acho que o documentário tem uma função, que é muito pequena, e para pouca gente. E foi assim com o “Notícias” até que houve o problema, quando ele passou a ser visto”.


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