A Cor, o Som e a Vida, por Edemilson Morais

O QUE É A LIBERDADE?

A Liberdade é azul, poética e musical. Mas também pode ser dramática e sofrível. A liberdade pode ser tudo e representar o nada, ou ser nada e representar o tudo. A liberdade, nas mãos de Kieslowski torna-se arte. Eleva o particular ao universal. Torna sensível o imperceptível. Encontra o original em meio às lágrimas.
Juliette Binoche é Julie. Uma personagem que após um acidente automobilístico perde sua filha e seu marido, um consagrado compositor. Recebe a trágica notícia ainda no leito do hospital - o suicídio se apresenta como solução. Um pouco de reflexão e a fácil resolução é abortada, por enquanto.
Julie sai do hospital e quer esquecer o passado. Livra-se de tudo que remete à sua família perdida – a casa, os objetos, os empregados, os amigos e o quarto azul. Mantém porém um lustre - um lustre de cor azul. Muda-se para um apartamento distante e isola-se. Surge, no entanto, Lucille, uma vizinha, que aos poucos se aproxima de Julie.
O passado ainda a persegue e não a deixa só – Olivier, um antigo amigo da família a encontra, assim como o jovem Antoine, única testemunha do acidente, e que retém consigo uma pingente em forma de cruz – presente que Julie havia ganho de seu marido. Mas o que reluta em libertar Julie é a música, representada pela composição inacabada de seu marido.

A LIBERDADE NO DIVÃ.

Antes de qualquer leitura ou reflexão sobre filme no que tange um viés psicológico, é interessante a introdução de alguns conceitos: o conflito – em resumo, a incompatibilidade com a própria personalidade, o desejo violento em contrastre com os demais desejos do indivíduo; a repressão – a defesa incessassante contra o conflito, a necessidade de esquecimento de uma idéia ou desejo que gere a dor; e o retorno do reprimido, a revelação da idéia, o desejo reprimido “escapa”, surgem os sintomas – atos falhos, sonhos, etc.
O conflito de Julie passa a existir logo após o acidente automobilístico. Ela não sabe o que fazer – desistir de uma vida, agora limitada ou continuar em busca de um novo motivo? Isso se expressa logo no começo do filme, em sua fracassada tentativa de suicídio. Julie enche a boca com medicamentos mas não consegue engolir. Quer morrer, mas ainda existe ali, mesmo que no fundo, o desejo pela vida. Esse desejo, entretanto, será reprimido. Julie fecha-se, isola-se do mundo - quer tornar-se um nada.
Viver é correr riscos: a família, os amigos e o amor são coisas maravilhosas, mas são passageiras, temporárias e passíveis de perda. Esse sentimento de vulnerabilidade gera dor. O medo de um novo sofrimento, num primeiro momento, pode ser visto como o fator chave que leva Julie a reprimir o seu desejo pela vida. E, reprimir esse desejo, é esquecer-se do passado, da vulnerabilidade de sentir-se bem, de ter uma vida plena e livre de riscos.
Assim, ela procura se livrar de todas as lembranças de sua vida anterior – dos objetos às pessoas; e acaba por mudar-se para um apartamento distante. De algo porém Julie não consegue se livrar – a música que estava sendo composta por seu marido para o concerto da celebração pela Reunificação da Europa, que devido ao repentino acidente, permaneceu inacabada. Aqui surgem os sinais de aparecimento daquilo que foi reprimido. Durante vários momentos do filme, Julie se apresenta tranqüila, quando de repente, a música surge bruscamente em sua cabeça – as lembranças, o passado – a vida se rebela, quer sair do ostracismo. Kieslowski, em toda sua magnitude representa esse “retorno do reprimido” de forma genial – o azul, a cor que domina a vida passada de Julie invade a tela num tom puro, e a composição inacabada do marido nos insurdece - é a trilha da revolta, da rebeldia de um passado que quer ser esquecido.
A personagem ainda luta para se livrar das lembranças, e cada vez mais surgem os sintomas inversos – o medo de andar pelas ruas e ser reconhecida; a perda da simples capacidade de chorar; e o bloqueio repentino de pensamento: em determinadas situações Julie perde rapidamente os sentidos – para nós, a tela torna-se preta e há um corte do filme.
O desejo é poderoso. Mais forte que Julie. O sentimento represado e reprimido só ganha forças. Os mergulhos de Julie num azul profundo da piscina relatam, ainda, esforços de luta com o que quer vir à tona. Aos poucos surgem novas mudanças: a amizade com a vizinha se intensifica e o amor de Olivier por ela começa a ser aceito e entendido – Julie ainda é importante para alguns. Uma amante de seu falecido marido, que se encontra grávida, é tratada por ela com atenção e dedicação.
O medo de viver, cada vez mais se desfaz. Julie descobre que viver requer correr riscos, que viver é buscar a liberdade, e que a liberdade é azul.

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