Entre Muitas Paredes, por Polyana Ramos

Iniqüidades, sentimentos de ira, revoltas, individualismos exacerbados cobrem a humanidade e a caracterizam como um todo. Muito já se discutiu sobre a natureza do homem, sua bondade inerente e desvirtuamento provocado pela inserção em sociedade ou a origem maniqueísta que o afirma como bom ou mau em sua dotação inata.
O filme “Cubo” trata do homem e suas possibilidades de relações com os indivíduos à sua volta. Relata uma estória elaborada de forma fantasiosa tanto em seu enredo como em sua estruturação cênica, ambientada no sufoco dos conflitos humanos e na carência destrutiva das sensações egocêntricas e ansiosas pela sobrevivência. Coloca um grupo de pessoas de diferentes personalidades e habilidades dentro de uma convivência obrigatória, que talvez, em condições normais e no cotidiano diário, fosse implausível ou mesmo, impossível. Fecha-os em uma situação sem precedentes, que os dignifica ao uso de seus próprios dons, em benefício de um conjunto, na luta pela vida.
Para sair do “lugar-comum”, o filme cria um cubo, personagem de pano de fundo para as interações entre seres de distintas características. Dentro deste objeto acontece toda espécie de desafio, pontuado de barreiras e limites aparentemente invioláveis. A morte espreita a cada nova jornada, a cada cubo desvendado, em toda a busca pela saída, pelo término da situação que clama pelo fim da vida.
Mediante este cenário, inimaginável em um mundo real, é que podemos retirar a analogia necessária para se obter uma melhor compreensão sobre os acontecimentos da estória referida.
A situação encerrada no cubo é aquela que se vive em sociedade: o embate entre incompatibilidade de idéias, o auxílio entre os indivíduos, a troca de experiências e a vontade pelo sobressalente, por aquilo que coloca as pessoas em patamares ou níveis diversos, obedecendo uma escala que vai do inferior ao superior. Não importa o lugar ou mesmo a forma como se procedem as relações entre os homens, haverá sempre o conflito no coletivo, em prol da relevância do individual. Haverá sempre a fraqueza, morta pela força ambiciosa do poder que domina, tiraniza e elimina os resquícios que impedem um caminho mais fácil e menos sinuoso. A humanidade convive desta forma e o cubo é apenas um quadro giratório das possibilidades de encontros e desencontros do existir em conjunto.
No entanto, a seleção natural conveniente nas teorias de Darwin, perde equivalência na situação sugerida pelo filme. Não serão os mais fortes, os que possuem mais habilidades físicas para a existência, que sobreviverão quando a necessidade de sobrevivência se faz obrigatória. Serão os mais puros, aqueles que não interagem diretamente com a fria e individualista sociedade e não vêem a vida como uma competição, que se sobressairão ao final de uma empreitada, contribuindo para uma consciência sem pesos e arrependimentos.
A lição obtida pela análise deste filme alia-se à importância da vivência em conjunto e o auxílio imprescindível gerado por ela. A vida em sociedade deve ser vista como um intenso aprendizado em uma escola inigualável. A escola em que os alunos compartilham mutuamente as idéias geradas pela habilidade do professor, não superior em inteligência, mas capaz no fornecimento de informações importantes e necessárias. Não deve haver, no contexto da existência coletiva, lugar para a competição cega e desenfreada, comandada pelos interesses desumanos do individualismo. Um grupo unido, em busca de uma solução para um problema comum, deve procurar abster-se das preocupações pessoais. Saber expor idéias, acatar sugestões, estas são as bases únicas na vida comunitária, para que no final, todos possam encontrar sua própria razão, a luz que acaba com a vasta escuridão da ignorância dos homens.

:: comente aqui :: <[email protected]>