Iniqüidades,
sentimentos de ira, revoltas, individualismos exacerbados cobrem a humanidade
e a caracterizam como um todo. Muito já se discutiu sobre a natureza
do homem, sua bondade inerente e desvirtuamento provocado pela inserção
em sociedade ou a origem maniqueísta que o afirma como bom ou
mau em sua dotação inata.
O filme “Cubo” trata do homem e suas possibilidades de relações
com os indivíduos à sua volta. Relata uma estória
elaborada de forma fantasiosa tanto em seu enredo como em sua estruturação
cênica, ambientada no sufoco dos conflitos humanos e na carência
destrutiva das sensações egocêntricas e ansiosas
pela sobrevivência. Coloca um grupo de pessoas de diferentes personalidades
e habilidades dentro de uma convivência obrigatória, que
talvez, em condições normais e no cotidiano diário,
fosse implausível ou mesmo, impossível. Fecha-os em uma
situação sem precedentes, que os dignifica ao uso de seus
próprios dons, em benefício de um conjunto, na luta pela
vida.
Para sair do “lugar-comum”, o filme cria um cubo, personagem
de pano de fundo para as interações entre seres de distintas
características. Dentro deste objeto acontece toda espécie
de desafio, pontuado de barreiras e limites aparentemente invioláveis.
A morte espreita a cada nova jornada, a cada cubo desvendado, em toda
a busca pela saída, pelo término da situação
que clama pelo fim da vida.
Mediante este cenário, inimaginável em um mundo real,
é que podemos retirar a analogia necessária para se obter
uma melhor compreensão sobre os acontecimentos da estória
referida.
A situação encerrada no cubo é aquela que se vive
em sociedade: o embate entre incompatibilidade de idéias, o auxílio
entre os indivíduos, a troca de experiências e a vontade
pelo sobressalente, por aquilo que coloca as pessoas em patamares ou
níveis diversos, obedecendo uma escala que vai do inferior ao
superior. Não importa o lugar ou mesmo a forma como se procedem
as relações entre os homens, haverá sempre o conflito
no coletivo, em prol da relevância do individual. Haverá
sempre a fraqueza, morta pela força ambiciosa do poder que domina,
tiraniza e elimina os resquícios que impedem um caminho mais
fácil e menos sinuoso. A humanidade convive desta forma e o cubo
é apenas um quadro giratório das possibilidades de encontros
e desencontros do existir em conjunto.
No entanto, a seleção natural conveniente nas teorias
de Darwin, perde equivalência na situação sugerida
pelo filme. Não serão os mais fortes, os que possuem mais
habilidades físicas para a existência, que sobreviverão
quando a necessidade de sobrevivência se faz obrigatória.
Serão os mais puros, aqueles que não interagem diretamente
com a fria e individualista sociedade e não vêem a vida
como uma competição, que se sobressairão ao final
de uma empreitada, contribuindo para uma consciência sem pesos
e arrependimentos.
A lição obtida pela análise deste filme alia-se
à importância da vivência em conjunto e o auxílio
imprescindível gerado por ela. A vida em sociedade deve ser vista
como um intenso aprendizado em uma escola inigualável. A escola
em que os alunos compartilham mutuamente as idéias geradas pela
habilidade do professor, não superior em inteligência,
mas capaz no fornecimento de informações importantes e
necessárias. Não deve haver, no contexto da existência
coletiva, lugar para a competição cega e desenfreada,
comandada pelos interesses desumanos do individualismo. Um grupo unido,
em busca de uma solução para um problema comum, deve procurar
abster-se das preocupações pessoais. Saber expor idéias,
acatar sugestões, estas são as bases únicas na
vida comunitária, para que no final, todos possam encontrar sua
própria razão, a luz que acaba com a vasta escuridão
da ignorância dos homens.
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